Seu corpo é seu

quarta-feira, julho 27, 2016


Minha relação com meu corpo nem sempre foi complicada. Eu fui uma criança despreocupada até chegar à quinta série. Lembro que era tão inocente que nem conseguia perceber que os corpos das pessoas eram diferentes. Quer dizer, eu sabia, mas não conseguia enxergar isso como algo que pudesse causar constrangimento ou diferença no tratamento.
Quando cheguei perto da puberdade comecei a reparar em algumas atitudes das pessoas à minha volta que, a princípio não me afetavam, mas que, com o passar do tempo e a repetição incessante começaram a moldar a maneira que eu me enxergava no espelho.
Nos almoços com família e amigos eu comecei a sofrer com algumas pessoas perguntando se eu ia mesmo repetir aquela sobremesa ou se minha mãe não percebia o quão rechonchuda eu era.
O tempo passou e minha mãe começou a se sentir responsável pela minha saúde e tentou, da maneira dela, diminuir meu consumo de doces e alimentos industrializados. Não preciso nem dizer que isso só piorou as coisas né? Eu escondia comida debaixo da cama, nas gavetas de roupa, nas caixas de brinquedo e NUNCA comia quando tinha alguém por perto. 
Eu cresci e comecei a ver minhas amigas tão magras e bonitas - eu fazia ballet, o que piorou bastante a minha pressão pra ter o corpo magro e perfeito que as bailarinas têm.
Eu comecei a odiar tudo em mim. Minha barriga, coxas, bochechas, braços e foi aí que eu comecei a tentar parar de comer. Passava dias só comendo uma carne no almoço e mais nada pelo resto do dia. Pra mim era fácil, meus pais sempre trabalhavam o dia todo e raramente estavam em casa na hora do almoço. Não acho que alguém percebeu, mas se perceberam devem ter ficado aliviados e pensado que morrer eu não ia, já que já tinha bastante reserva energética mesmo.
As pessoas começaram a me ensinar a ter nojo de mim, e quando eu fiz 15 anos eu estava na fase mais magra da minha vida. Ficou tão lindo nas fotos, não é mesmo? As pessoas me elogiavam tanto e estavam tão felizes com meu novo corpo que não pararam pra se perguntar por um segundo o preço que eu paguei por aquele corpo dentro dos padrões.
Minha festa passou e alguns anos também, e o efeito sanfona me acompanhou em cada momento da minha vida. Eu aprendi a odiar comer, a chorar quando comia demais e até tentei vomitar tudo o que comia por algumas vezes. 
Cheguei à idade adulta entre várias dietas malucas, perdas e ganhos de peso, mas nunca sem me sentir culpada por quem eu sou.
O que eu vou falar agora é pra deixar todo mundo chocado mesmo. Eu não sou gorda. Eu não tenho nenhum indicativo de problemas de saúde causados por excesso de peso. Eu mantive meu IMC dentro do normal por todos esses anos, mas ainda assim eu me odiei por completo todos os dias desde que tinha 11 anos.
Eu costumo dizer que minha rebeldia veio atrasada, porque eu só comecei a me revoltar com tudo que as pessoas faziam comigo, depois dos 20 anos. 
Hoje eu não posso dizer que amo meu corpo e nunca me sinto insegura com ele, mas eu sei que ele é meu, só meu, diferente de todos os outros e parte de quem sou, da minha história, das minhas vivências e daquilo que eu vou deixar no mundo quando eu morrer.
Eu queria poder voltar lá atrás e dizer pra a Gabi de 13 anos que não existe nada de errado em não ser magra. Que o corpo dela era lindo e perfeito, e que ela não precisava deixar as pessoas machucarem ela daquele jeito. Eu queria dizer pra ela que o mundo é cruel, mas que o único jeito da gente sair dele inteiro é se amar com todas as forças e ter orgulho de cada parte do nosso ser.
Hoje em dia eu não dou mais satisfação pra ninguém e eu não sei por quanto tempo essa rebeldia vai durar, mas meu corpo é meu.
Cada piercing, cada corte de cabelo, cada tatuagem que eu fiz e que eu posso vir a fazer daqui pra frente é uma decisão minha. Eu carrego esse corpo, eu sofri e sofro a dor e a delícia de estar dentro dele, eu sou responsável por manter a integridade e a saúde dele e eu não quero saber de ninguém me dizendo o que fica bom nele ou não.
Antes de fazer qualquer comentário sobre o corpo de outra pessoa entenda que todos temos sentimentos, que todos nos sentimos mal com algumas coisas e que o que você acha ou deixa de achar sobre o corpo de alguém não vai fazer nenhuma diferença no mundo. Não vai acabar com a fome, não vai acabar com a pobreza e nem com as guerras, então aprenda a guardar pra você.
Termino esse texto mandando muita força pra todas as pessoas que lutam diariamente com o próprio corpo, e um abraço especial para as pessoas que são gordas e passam por coisas muito piores do que eu diariamente. 
Nossa luta não vai parar, nosso corpo é nosso, e ele é lindo!

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6 comentários

  1. Que lindo seu texto....
    Essa consciência corporal, de que ele é vc, ele vai te acompanhar na sua jornada, vocês tem que se dar bem... isso é tão difícil de se ter, mas tão importante.
    Amei!
    Bjinhos
    JuJu
    As Besteiras Que Me Contam

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  2. Não faço ideia de como deve ter sido dificil essa pressão imposta pela sociedade. Tenho uma irmã que também passa por algo parecido com você e fico muito incomodada e triste quando vejo alguém cobrando dela perder peso e etc. Infelizmente, isso acontece de mais.
    Que bom que você superou essas criticas e está se sentindo melhor com tudo isso.
    O que importa é ser feliz e se aceitar, claro que tentar melhorar algo que incomoda é bom, fazemos isso quando nos maquiamos, por exemplo, mas temos que fazer por nós, não pelos outros.
    Um beijo!

    www.impulsofeminino.com

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  3. Me identifiquei muito com o seu post! Eu era uma criança magra até os 8 anos, fiquei gordinha dos 8 aos 13 e depois emagreci de novo, mas sofri tanto nesse período que mesmo já não estando mais acima do peso, eu me sentia feia. Escutei muita coisa de amigos da família, parentes, colegas de escola e até de professores, é muito difícil esquecer quando passamos por situações como essas. Demorou muito, mas eu finalmente estou me aceitando como eu sou e, mesmo estando um pouco acima do peso, sinto que me amo muito mais hoje.
    Beijos
    Bluebell Bee

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  4. Nossa, passei por isso em almoço de família também, principalmente na família do meu pai, daí toda vez que tinha almoço lá e até hoje, eu pego pouca coisa pra não ter que lidar com aqueles comentários. Já fiz muito isso de esconder doce também, principalmente aquele pacote de Fini de dentadura, sabe? Hahahaha! Eu também, só comecei minha revolta depois dos 20, aí fico parecendo uma adolescente de 15 anos, só que pior. Amei! Simplesmente amei! Quero chegar um dia nesse pensamento de amar meu corpo, porque minha opinião sobre isso ainda é bem bipolar, tem dias que amo meu corpo, tem dias que eu odeio meu corpo (mais dias odiando do que amando, e eu sei que isso tá errado), mas seu corpo é lindo do jeito que é, Gabi! Sério. Desde que te conheci e te vi a primeira vez, não consigo te imaginar magrinha magrinha, sabe? Você é maravilhosa do jeito que é!

    Beijos!
    www.likeparadise.com.br

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  5. Que post lindo =)
    Adorei conhecer seu blog!!!

    http://maisdicassempre.blogspot.com.br/

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  6. Cada pedacinho do nosso corpo, cada cicatriz, cada tatuagem, cada estria ou celulite, cada marca de nascença ou pinta, é tudo tão histórico, tão significativo, tão lindo!
    Não podemos deixar que moldem o que devemos fazer com nosso corpo.
    Adorei seu texto, adoro quase tudo que você escreve na verdade hahaha.
    Xoxo
    http://ja-ta-crescida.blogspot.com/

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